Vinhos do Brasil: Memorias de um enófilo

Vale dos Vinhedos, Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul

“No Mundo do Vinho não Existem Verdades Absolutas

Este post bem que poderia ter outro título: “Diário de um enófilo- Revisitando os últimos 50 anos”. Porém, vamos manter o título original.

Meus primeiros passos no mundo da vinicultura brasileira, foram dados nos anos 1970 quando vivia na cidade de Santa Maria, Rio Grande do Sul.

Naquele período, um colega da Universidade Federal de Santa Maria, Prof. Dr. J .E. Daudt, Doutor em Enologia pela Universidade de Davis, Califórnia, transmitiu-me muito conhecimento teórico sobre o tema da vinicultura. Em seu livro aprendi o que realmente era um vinho e como elaborá-lo.

Naqueles anos era comum tomarmos vinhos de mesa provenientes da colônia italiana estabelecida na Serra de Camobí, próxima ao campus da UFSM. Eram vinhos, em sua maioria, elaborados com uvas tintas americanas e suas híbridas como Bordô, Isabel e Concord ou Moscato branco e Niágara (brancas).

Na realidade, também degustávamos outros caldos produzidos pelas vinícolas Rio-Grandense, Martini & Rossi (que elaborava o conhecido Chateau Duvalier-branco, tinto e rosê – como dizia o refrão), Granja União, Aliança, Aurora, Salton e Lacave. Além dos vinhos da Forestier, elaborados com vitis vinífera, em especial com merlot, cabernet franc e cabernet sauvignon. Naturalmente, não se comparavam com os seus primos europeus!!

Pessoalmente, considerando o que existia, a casta que mais apreciava era a merlot que se distinguia qualitativamente das outras. Trata-se de uma casta de ciclo médio de maturação, colhida antes das intensas chuvas de março da Serra Gaúcha, o que confere menos açúcar e maior acidez às uvas. Técnicas de manejo de plantio conseguem, atualmente, atenuar o problema.

Lembro-me que sempre degustávamos o Merlot Raschiatti nos bons churrascos do meu amigo e mentor Professor Jose Sales Mariano da Rocha. Era um vinho seco, pouca acidez, redondo, com taninos equilibrados, aroma a nozes, porém, não tão leve.

Entre 1973/74, fui testemunha do estabelecimento da Vinícola Almadén na Região da Campanha Gaúcha, próxima à cidade de Livramento. Esse fato significou uma mudança na tradição vitivinícola do estado que concentrava sua produção na serra gaúcha.

No ano 2009, a empresa foi vendida para a Miolo Wine Group, que cultiva, atualmente, cerca de 23 variedades de castas viníferas.

Nesse período começaram a chegar com maior frequência, vinhos argentinos, chilenos, portugueses, franceses e alguns brancos alemães, o que promoveu maior opção, competição e seletividade ao consumidor brasileiro.

Um detalhe que ainda chama minha atenção é que há 50 anos, o brasileiro consumia 2,0 litros por habitante de vinho. Atualmente, com uma população 2,3 vezes superior, esse consumo passou para 1,9 litros per capita.

Creio que agora se toma mais vinho fino que sendo um produto mais caro, exige mais conhecimento e recursos financeiros por parte do consumidor. Seria essa uma explicação convincente?

Por outro lado, embora tenhamos mais de 82 mil hectares plantados com uvas, pouco mais de 10 mil hectares são destinados à produção de vinhos finos. Mesmo assim, ainda somos o quinto produtor do hemisfério sul. Falta algum elemento nessa equação? Ou ainda somos um país com pouca educação e tradição vinícola e pouco dinheiro no bolso? Fatores econômicos, culturais, climáticos, sociais? Tema para tese de doutorado!!!

Sem querer desmerecer o grande esforço e avanço qualitativo e tecnológico dos últimos 50 anos, e as 682 vinícolas que operam no Rio Grande do Sul, reconheço que ainda falta alguns degraus para atingirmos um nível de consumo competitivo a nível global. Impressiona quando vejo que se consume 11 litros de cachaça por habitante e mais de 70 litros de cerveja.

Uvas, Regiões Produtoras e Vinícolas

A produção que se concentrava na Serra Gaúcha foi expandida, a meados dos anos 70, para a região da Campanha. Com os anos se expandiu para outras regiões como Santa Catarina e núcleos no sudeste e nordeste brasileiro (nas margens do rio São Francisco, impulsionada, inicialmente, pela Embrapa). Alguns setores isolados se encontram no Paraná, próximo a Curitiba, e Goiás.

Mesmo com a expansão geográfica, 90% da produção nacional ainda se concentra no Rio Grande do Sul. Aqui são cultivadas cerca de 138 variedades das quais 30% são responsáveis por 95% da área total de cultivo. Duas delas, a Isabel e a Bordô representam 50% da área plantada no Estado. As variedades europeias respondem apenas por 40% do total das uvas cultivadas no Brasil.

O Rio Grande do Sul elabora 90% do vinho brasileiro e 85% do espumante. A maior parte da produção é de vinho tinto (86%); os brancos representam 13% da produção e os Rose apenas 1%. Já os espumantes são basicamente de uva branca (86%).

Entre os anos 1930 a 1970 os vinhos eram basicamente elaborados com uvas americanas e suas híbridas (Isabel e Bordô). Todas produziam vinhos de mesa bem modestos.

Com a chegada das multinacionais nos anos 70, houve uma corrida para o estabelecimento de novos vinhedos, estabelecimento de novos experimentos com novas variedades e clones trazidos da Europa e exaustivos ensaios genéticos levados a cabo pelos pesquisadores da Embrapa.

O apoio da Embrapa Uva e Vinho com seu Centro de Pesquisas em Bento Gonçalves na Serra Gaúcha foi muito importante nessa nova etapa.

As tradicionais merlot, cabernet franc e sauvignon, tannat e pinot noir, dentre as vitis viníferas, são as mais cultivadas.

A syrah, cultivada no Vale do São Francisco, tem obtido bons vinhos, especialmente na primeira colheita anual (a do primeiro semestre). Com ajuda da irrigação, tecnologia, bons recursos humanos e clima favorável, são obtidas duas safras anuais. Lembro-me de uma recepção em 1992 na embaixada do Brasil, em Roma, onde eram servidos os syrah elaborados pela Embrapa.

Na Campanha Gaúcha houve bons avanços com a tempranillo (espanhola), Pinot noir (francesa) e touriga nacional (portuguesa). Porém, nada que ainda possa se comparar com aqueles elaborados na Europa.

Com relação às uvas brancas, pode-se destacar a chardonnay, semillon, sauvignon blanc, moscatel, chenin blanc, riesling itálico e renano, gewurztraminer e pinot grigio.

O grande diferencial na produção vitivinícola nacional, atualmente, está nos vinhos espumantes; sei que não estou sozinho quando faço essa afirmação. Na Serra Gaúcha são elaborados com chardonnay – pinot noir e algo de riesling itálico, tanto pelo método charmat como pelo tradicional (champenoise) – veja meu post anterior.

As características climáticas da serra gaúcha, como já mencionei (muita chuva, altas temperaturas e alta umidade na época normal da colheita), tornam-se um problema (fitossanitário e afeta o teor de açúcar por exemplo), para as espécies de amadurecimento tardio como a cabernet sauvignon. Sendo colhidas antes do seu período de amadurecimento normal, o seu teor de açúcar é mais baixo assim como sua acidez é mais alta. Por outro lado, essas são características apreciáveis para elaboração de vinhos espumantes. Claro que o bom manejo das videiras, como podas, pode atenuar os problemas mencionados.

Características

Quando comparada com classificações atuais de países com tradição vitivinícola, especialmente os europeus, a classificação brasileira é simples. São os vinhos de mesa e vinhos finos.

Os de mesa são bem mais modestos e ainda elaborados, em sua grande maioria, com uvas americanas e suas híbridas. São vinhos suaves, oferecidos para consumo após a vinificação. Boa parte é comercializada em garrafões.

Os vinhos finos são elaborados com vitis viníferas e classificados de acordo com sua procedência, terroir ou indicação geográfica, sob determinadas normas.

  • Indicação de Procedência (IP)
  • Denominação de Origem (DO).

Existem no país 5 Indicações de Procedência sendo 4 no Rio Grande do Sul e, a mais recente, em Santa Catarina.

  • IP: Vale da Uva Goethe (vinhos de mesa) em Santa Catarina.
  • IP: Monte Belo (RS),
  • IP: Farroupilha (2015), RS,
  • IP: Altos Montes (RS),
  • IP: Pinto Bandeira (RS).

Só existe uma Denominação de Origem, concedida em 2012, a D.O. do Vale dos Vinhedos que se situa entre Bento Goncalves, Monte Belo do Sul e Garibaldi no Rio Grande do Sul, que ocupa 83 mil Km2 entre as rodovias estaduais 444 e 470.

A distinção entre IP e DO segue, em linhas gerais, critérios estabelecidos em vários países e que já foram estudados em posts anteriores. Porém, no caso brasileiro, os critérios são menos complexos.

Vale dos Vinhedos

Minhas primeiras visitas ao Vale dos Vinhedos ocorreram nos anos 70. Aquele sempre foi um lindo Vale, porém, ainda não contava com a estrutura enoturística e gastronômica que hoje possui.

Em seus 83 km2 são cultivadas principalmente Merlot, Cabernet sauvignon, Cabernet franc, Pinot noir e Tannat. Atualmente, muitas outras castas viníferas são cultivadas em menor quantidade.

A região foi predominantemente ocupada por italianos do Veneto e Trento em 1875 e pelos seus atuais descendentes. Antes, porém, em 1832, recebeu a colonização alemã.

Entre as vinícolas que aprecio e tenho maior conhecimento, se destacam a Casa Valduga, Angheben Bodega, Pizzato (com seu conhecido merlot), Don Laurindo, Almaúnica, Vallontano, Lidio Carraro (que exporta vinhos premium para vários países), Cave de Pedra, Cavas, Don Candido, e Miolo (líder na produção de vinhos finos no Brasil).

Existem várias outras vinícolas menores e uma excelente rede gastronômica. O enoturismo já é uma realidade na região.

Recomendo degustar os espumantes, já que existe uma grande variedade. A seleção dependerá do gosto e do bolso de cada um. Para conhecer um pouco mais sobre champagne e vinhos espumantes recomendo ler o meu post anterior.

Se espumante é o principal interesse, recomendo explorar a rota dos espumantes em Garibaldi com suas várias vinícolas especializadas.

Só a título de exemplo, no ano passado (2019), se destacaram vários espumantes como o da Vinícola Luiz Argenta, elaborado com Pinot noir (blanc de noirs), assim como o Íride da Miolo, com 75% de Pinot noir e 25% de Chardonnay (envelhecimento de 10 anos na vinícola).

Ainda destacamos o Champagne Vite Sur Lie da Peterlongo (o único brasileiro a poder usar o termo champagne) e o espumante Sur Lie Nature da família Valduga.

São espumantes caros, porém, vale a experiência.

Boas degustações!!

Ate a próxima!!

2 respostas para “Vinhos do Brasil: Memorias de um enófilo”

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