Vinho japonês e sua evolução

“Wine is the best broom for troubles” (Vinho é a melhor vassoura para os problemas) – Provérbio japonês

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Prefeitura de Yamanashi e o Monte Fuji

Confesso que em minha primeira visita ao Japão, em setembro de 1981, pouco conhecia do vinho japonês. Toda a minha experiência naqueles anos, se concentrava nos vinhos da Europa e do Novo Mundo.

Por outro lado, não era segredo que o Japão possuía uma tradição vitivinícola apenas emergente, de acordo com padrões vinícolas ocidentais. Realmente, o seu clima chuvoso e úmido, tradição, aliado à sua topografia montanhosa não ajudavam muito!!

Observações semelhantes foram compartidas por um colega enófilo italiano pouco antes de passar aquele mês de final de verão na terra do sol nascente.

Durante essa primeira visita ficou claro que o Japão já possuía videiras com mais de 1000 anos! Porém era especialmente para uvas de mesa.

Das tantas novas experiências que um recém chegado acumula no Japão, achei interessante que todas as sextas feiras à tarde, depois do trabalho, era tradição dos colegas japoneses se reunirem com seus chefes para discutirem seus negócios e planos. Chamavam a esses encontros de “nomikai”. Correspondem mais ou menos ao nosso atual “happy hour” só que mais formais. Fui convidado a participar de duas dessas confraternizações e me dei conta que acompanhavam suas “reuniões” com “sake”, “bi-ru”(cerveja) ou “nama-bi-ru” (nosso Chopp) e alguns com whisky Suntory. Não tomavam vinho. Perguntei o porquê a alguns colegas e sempre me diziam que era por falta de tradição, preço alto dos importados e modesta qualidade dos vinhos nacionais.

Em viagens posteriores, especialmente no presente século, observei que o consumo de vinho, assim como sua qualidade, mostrava sinais de crescimento.

No ano 2000 encontrei em Yokohama um colega do Serviço Florestal japonês que havia trabalhado conosco na FAO em Roma e que, também, fez um estágio técnico em nosso Instituto em Freiburg, Alemanha. Satoshi-San era um apreciador de vinhos e, com ele, passei a conhecer melhor a realidade da vitivinicultura japonesa.

À título de curiosidade, nas minhas primeiras visitas ao país, participei de várias recepções oficiais em que eram servidos, unicamente, vinhos brancos alemães (meus velhos conhecidos) ou tintos franceses. Em algumas oportunidades apareciam alguns japoneses elaborados com Müller Thurgau, Chardonnay, Koshu (uva supostamente japonesa) e o tinto Muscat Bailey A. Em minhas degustações observei algum avanço, porém, estava claro que ainda não haviam conseguido, qualitativamente, elaborar algo no nível dos seus “primos europeus”. Eram vinhos pouco equilibrados, ácidos ou doces, uniformes e parecidos uns aos outros (pouca individualidade).

Um pouco de história

A elaboração de vinho com uvas começou em 1877 como resultado da “Restauração Meiji” que restituiu o poder imperial ao Japão e que deu início a grandes mudanças econômicas, sociais e culturais na sociedade japonesa.

Nessa época o governo japonês importou muitas variedades de castas viníferas da Europa e Estados Unidos e enviou dois agrônomos japoneses para estudar enologia em Beaune, na região da Borgonha, França.

O processo continuou e hoje existem 28 variedades de vitis viníferas e 61 variedades de uva de mesa. Nesse período foram iniciados testes com essas uvas, porém, só alguns anos depois de minha primeira visita ao país, no final dos anos 1980, as indústrias iniciaram seus processos de modernização com técnicas mais avançadas de produção e em alguns casos, uso do processo “Sur Lie” (envelhecimento do vinho sobre as borras e “bâtonnage”) especialmente nos vinhos elaborados com a casta Kochu.

Em 1877, foi criada a primeira Companhia Vinícola Nacional no Estado (Prefecture em japonês) de Yamanashi, situada a sudeste de Tóquio. Interessante observar que essa região, ao lado do Monte Fuji, é coberta por 75% de florestas.

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Yamanashi

À título de informação, o Japão é dividido em 47 “Prefeituras”; Kanagawa, a leste de Tóquio, e Yamanashi, são as maiores produtoras. Outras Prefeituras que elaboram vinhos são Hokkaido (norte do Japão), Trochei, Miyazaki e Nagano.

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Produtores

De acordo com dados de 2017, o Japão importou de outros países cerca de 382,000 quilolitros de vinho, o que equivale a 95% de seu consumo. Somente 4% do vinho consumido (14,988 quilolitros) é genuinamente japonês. O Estado de Yamanashi é a principal região de produção com 33% da produção nacional.

O consumo tem crescido sendo 95% importado a granel de outros países e engarrafado localmente.

Por outro lado, ainda não existe um controle federal de produtividade nos vinhedos japoneses; sua produção por hectare varia de 80 a 100 quilolitros.

Falta um sistema de Apelação Nacional. O que se usa é a “marca de origem” que é um sistema de denominação legal.

Os vinhedos são em sua maioria plantados em terrenos com alta inclinação entre 350 e 750 metros de altitude evitando competição do uso do solo com a cultura do arroz e outros cultivos agrícolas.

Observo que nos últimos 10 anos o vinho passou a ser moda; dessa forma, muitas vinícolas emergentes e independentes entraram no mercado e estão produzindo vinhos de boa qualidade como a Grace, Marufuji, Kizan, Katsunuma, Takeda e Tsuno. O que em parte explica por que 96% das áreas plantadas com vinhedos são de micro e pequenas empresas familiares com áreas em torno aos 5,000 metros quadrados.

A Companhia Vinícola Yamanashi lançou em 1949 sua etiqueta Mercian, que foi o primeiro vinho japonês elaborado com uva japonesa (Koshu) e, desde 1970 é internacionalmente conhecido como Château Mercian. Muito apreciado no país.

Em 1987 a Mercian (pertencente hoje ao Grupo Kirin) comprou a vinícola Markham do Napa Valley, Califórnia e, posteriormente, a Château Reysson de Bordeaux, França iniciando um processo de expansão para Europa e América do Norte que segue bem vivo.

Atualmente, as maiores empresas produtoras são a Suntory e a Kirin (através de sua Corporação Mercian). A primeira elabora bons cortes de merlot/petit verdot e bons chardonnays em Nagano; a segunda elabora um bom Koshu.

Na ilha de Hokkaido, ao norte do país, surgiu uma nova fronteira de produção, que tem elaborado apreciáveis pinot noir.

Uvas

As uvas mais plantadas e conhecidas são a Koshu (branca) e a híbrida Muscat Bailey A que produz vinhos tintos.

Também são encontradas em pequenas quantidades as uvas francesas merlot, cabernet sauvignon, shyraz, pinot noir, chardonnay e outras.

Algumas variedades norte americanas como Delaware e Niágara foram muito plantadas em passado recente, porém, atualmente, seus plantios são reduzidos.

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Uvas Koshu (uma bela uva de cor rosa)
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Muscat Bailey A (Tinta híbrida nativa)

 Essa uva tinta é usada em corte com uvas europeias criando um vinho estilo Bordeaux.

Na realidade, como já frisamos, as castas plantadas para produção de vinho possuem áreas muito reduzidas não só pelo uso alternativo do solo, mas também pela margem de lucro na produção e comercialização de uvas de mesa que é bem maior.

Os vinhos de koshu são bem claros, com sabores e aromas primários a cítricos, maçãs verdes, pêssego e pera; acidez alta, com teor alcoólico de 11% e devem ser consumidos jovens. São leves, alta mineralidade. As uvas possuem cascas grossas e amargas. Seu baixo teor de açúcar produz um mosto com no máximo 10% de álcool e por isso passa normalmente por um processo de chaptalização e de Sur Lie o que eleva o teor alcoólico final para 12%.

Acompanham bem peixes defumados, polvos e outros frutos do mar, assim como queijos tipo gruyere e cheddar.

Os melhores são produzidos em Yamanashi, oeste de Tóquio, próximo ao Monte Fuji.

Os vinhos de Muscat Bailey A são leves e aquosos com baixa acidez e taninos. Seus aromas são florais e sabores frutados. Teores alcoólicos entre 11 e 12%. Acompanham bem a carnes brancas não muito condimentadas como frango e peru, assim como a atum.

Em degustações efetuadas por enólogos e especialistas, em geral, tem recebido notas inferiores aos vinhos koshu (pontuações entre 75 e 85 pontos).

Pode-se concluir do post o que muita gente já imaginava (especialmente alguns colegas japoneses), ou seja, o Japão não entraria na primeira Divisão dos grandes e tradicionais países produtores de vinhos. Contudo, creio que é uma boa lição aprender com os japoneses como eles buscam suas soluções e suplantam seus problemas. O vinho não é uma exceção.

Desejo que tenham a oportunidade de degustar esses vinhos e que desenvolvam seus próprios critérios e conclusões. Será uma boa experiência cheia de boas surpresas. Como mencionei em post anterior, “não existe verdade absoluta no mundo do vinho”. O que é mais ou menos para uns pode ser muito bom para outros. Aproveitem!

Kampai!! (Saúde!!)

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